Friday, February 12, 2010

Memórias de um tempo indefinido

A oportunidade era de aproveitar, sessões de cinema eram raras ali, e acabou por ser o programa escolhido para me voltar a encontrar com as primas. Enquanto os trailers dos filmes seguintes passavam, enterrámo-nos nas grandes poltronas de veludo puído. O cine-teatro, à época, tinha sido construído com todos os requintes possíveis e imagináveis. O responsável pela ambiciosa empreitada, um filho da vila que tinha feito fortuna no estrangeiro, quis que tudo fosse feito com a memória dos melhores teatros de Paris e Londres.
As cadeiras, de primoroso veludo vermelho, bem forradas e com pormenores em madeira escura, estavam brilhantes na noite de abertura. A sala não era grande, mas era rica e a estreia teve honras de realeza. Os pesados reposteiros convidavam a entrar naquele mundo tão diferente, de ilusão e luxo. As fofas carpetes, tinham sido colocadas quase na véspera, para serem estreadas apenas pelas altas individualidades da vila. O cartaz, para uma tão importante noite, era uma peça simples, revista à portuguesa, popularucha, organizada pelo grupo de teatro da paróquia. A atmosfera, essa, era de festa.
Nunca se tinha visto tanto janotismo, nem mesmo na procissão da Semana Santa. Os “solipédes” chegaram na noite de abertura, com toda a pompa e circunstância. Chamavam-lhes assim, por serem aqueles que, para lazer, podiam ter o seu próprio cavalo (solípede). O povo, ficou a ver aquele desfile, antes de entrar e ocupar os lugares mais baratos. Era como os Óscares e a sua passadeira vermelha. A tia costumava contar esse “espectáculo” que tinha visto em pequena muitas vezes. Como todos estavam garbosos: estrelas de cinema por uma noite; e como o Menino Francisco lhe tinha sorrido e atirado um beijo sem a mãe dela ver.
Mesmo já desgastado e usado, não é difícil imaginar tão grande festa, quando passo pelos tecidos coçados e queimados pela luz, do magnífico cine-teatro. Lembranças de plumas e veludos, de lantejoulas e franjas ecoam pelas salas. O parapeito do balcão sente ainda a leveza das luvas que por ele passaram, e o bengaleiro, o peso das peles.
No meio da memória de tanto luxo e belas recordações, em exibição estava um filme de terror. Um “gore” da pior espécie com membros decepados em todas as direcções, cabeças cortadas e sangue por todo o lado. Era o que estava programado, e a ida ao cinema tinha sido escolhida sem sabermos o que ia passar. À saída, enquanto pensávamos na sabedoria que tínhamos demonstrado em querer ver o filme de qualquer das maneiras, encolhemo-nos umas contra as outras, com medo do que poderia estar à espreita por trás de portas entreabertas.
A história rica do teatro só faz com este pareça agora o palco perfeito para assombrações de antigos actores, segredos embebidos nas carpetes e terrores escondidos lá em baixo, nos camarins. Quando uma criança que nem devia ter estado a ver aquele filme - e que aliás, por incrível que pareça, passou o tempo todo a rir - , salta do meio dos reposteiros para nos pregar um susto, decidimos acompanhar-nos às casas umas das outras. Assim, a nossa, que não seria a mais longe, fica para último por sermos o grupo maior. Depois de lentas e penosas deambulações por campos na penumbra, chegamos a casa.
Quando atravessamos finalmente a ombreira e o sentimento de segurança se espalha, um mocho solitário pia. Três vezes, como um sinistro vaticínio, desassossegando-nos o espírito.

3 Alvitres:

às 6:52 PM, Blogger Té la mà Maria - Reus alvitrou...

un verdadero placer visitar tu blog
saludos desde Reus Catalunya

 
às 8:49 AM, Blogger *Nês alvitrou...

obrigada
ás vezes pergunto-me como é que se descobre este blog no meio de tantos outros...
afinal não é assim tão difícil...

 
às 11:51 PM, Blogger Jane alvitrou...

ainda me lembro do salto que deste (demos) quando o miúdo de lá saiu!

 

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